Hoje o comitê de política monetária decidiu, por unanimidade, elevar a taxa básica de juros da economia (SELIC) em 0,75 p.p. para 10,25% ao ano. Mas por que o Banco Central eleva a taxa de juros justo em um cenário de crescimento econômico?
Primeiramente vamos passar alguns pontos importantes de economia para entendermos melhor a situação.
Inflação = Aumento nos preços.
Outro ponto básico mas muito importante, é a lei da oferta e demanda, basicamente, quando a demanda (procura) por um determinado bem aumenta, o preço deste tende a aumentar, e se a demanda diminui o preço deste tende a diminuir. Da mesma maneira, se a oferta desde bem aumenta o preço deste tende a diminuir e se a oferta diminui o preço aumenta.
Outro ponto importante é o seguinte, simplificando um pouco o mundo, as pessoas tem uma decisão importante a ser tomada com relação ao dinheiro, elas podem guardar dinheiro em uma instituição financeira, que rende juros, ou mantê-lo no bolso, que não rende juros nenhum. Se mantiverem todo o dinheiro no banco rendendo juros não terão nada para comprar bens, consumir. Se mantiverem todo seu dinheiro no bolso estarão deixando de ganhar juros. Portanto, quanto maior a taxa de juros, mais atrativo fica manter seu dinheiro guardado e quanto menor a taxa de juros, mais incentivos temos para manter dinheiro no bolso.
O terceiro tópico é o mais complexo e está relacionado com o mercado de trabalho e a taxa de desemprego. Encarando o mercado de trabalho como um mercado qualquer, temos que os trabalhadores são os produtos deste mercado e que seus salários são seus preços. Agora, novamente pela lei de oferta e demanda, se o número de desempregados diminui, significa que há uma escassez deste bem (trabalhadores) nesse mercado, ou seja, seu preço (salário) irá aumentar e vice versa. Sabemos que as firmas incluem nos preços de seus produtos os custos de mão-de-obra, portanto, quanto mais caro for a mão-de-obra, maior será o preço do produto que a firma produz. Concluindo, quanto menor o desemprego, maior o salário, as firmas repassam isso para seus produtos e os preços elevam-se. TROCANDO EM MIÚDOS : Quanto menor o desemprego maior a inflação e vice-versa.
Uma rápida análise do cenário brasileiro nesta primeira metade do ano nos permite concluir o porquê do aumento da taxa básica de juros da economia.
Temos que desde o inicio do ano o consumo das famílias vem aquecido devido as medidas tomadas durante a crise de 2008/2009 como a redução de impostos, principalmente de IPI sobre automóveis e eletrodomésticos da linha branca e como a redução da taxa de juros para 8,75% a.a. Como o aumento no consumo foi estimulado, rapidamente, por essas medidas, a demanda aumentou rapidamente, e não foi acompanhada pela oferta, pois para ocorrer um aumento da oferta as firmas devem passar a produzir mais, isso significa, investir em mais máquinas e equipamentos, contratar mais pessoas etc. Esse aumento maior da demanda do que da oferta leva a uma elevação no nível de preços (inflação). Tivemos também a redução da taxa de desemprego em abril para o nível mais baixo da série histórica neste mês, 7,30%, o que, como vimos anteriormente, também leva a um aumento da inflação.
Imaginem uma "cesta" que contenha os bens mais consumidos pelas famílias, se o preço desta cesta aumenta, significa que houve inflação, se o preço da cesta diminui houve deflação. Essa cesta é o IPCA (índice de preços ao consumidor amplo). Podemos observar o efeito de todos os eventos citados anteriormente ao avaliarmos o comportamento do IPCA desde o início do ano.
Em janeiro deste ano observamos um aumento de 0,75% no IPCA com relação a dezembro de 2009, em fevereiro houve um aumento de 0,78%, em março de 0,52%, em abril de 0,57% e em maio de 0,43%, ou seja, desde o início do ano tivemos um aumento de 2,31% no IPCA.
Essa desaceleração da inflação que observamos desde o início do ano foi devido a retirada de estímulos ao consumo (redução de impostos e da taxa de juros)e a certas sazonalidades. Porém, relatórios do BACEN, apontam que a expectativa do mercado para inflação no ano de 2010 está perto de 5,7%. Tendo em vista que o governo trabalha com uma meta de inflação na casa de 4,5%, ele deveria fazer alguma coisa para desacelerar a evolução dos preços.
Podemos então concluir porque o governo aumenta a taxa de juros em um momento de crescimento elevado da economia, com o rápido crescimento há um aumento maior na demanda agregada do que na oferta agregada, isso pressiona os preços, o aumento da demanda agregada leva as firmas a aumentarem sua capacidade de produção para atender os pedidos, aumentando investimento em máquinas, equipamentos e pessoal, o que leva a redução do desemprego, a redução nas taxas de desemprego eleva os salários, as empresas repassam essa elevação dos custos de produção para o preço de seus produtos, o que também reforça a inflação. Com todos esses fatores pressionando os preços, o governo encontra-se em uma posição em que tem que reduzir o crescimento da demanda agregada para evitar uma inflação acima do esperado, e a ferramenta que ele possui para isso é a taxa de juros. Com o aumento da taxa de juros ele desestimula o consumo das famílias (fica mais vantajoso manter um pouco mais de dinheiro no banco, rendendo um pouco mais de juros) e desestimula o investimento das firmas (fica mais custoso conseguir dinheiro emprestado, uma vez que ao pegar dinheiro emprestado as firmas precisam pagar uma taxa de juros), o que leva a um arrefecimento no mercado de trabalho, evitando o aumento dos salários acima do desejado, resultando assim em uma inflação mais baixa.
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